15 fevereiro 2007

Ciência, ensino e realidade

Artigo de Eloi S. Garcia

Eloi S. Garcia, pesquisador e ex-presidente da Fundação Oswaldo Cruz, é membro da Academia Brasileira de Ciências. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

Quando iniciei minha formação científica, nos anos 60 do século passado, a meta central da ciência não era gerar tecnologia e sim o avanço do conhecimento e a geração de novas idéias.
Somente alguns aspectos do conhecimento tinham alguma relevância para o desenvolvimento tecnológico.
A tecnologia se encontrava melhor associada a indústria e a ciência e a arte com a cultura. Ambas as atividades tem um ancestral evolutivo comum que é uma forma antiga de percepção e apropriação da realidade: a magia.
A arte mantinha um vínculo secreto com a fantasia, imaginário, emoção, pensamento e atitude.
A ciência era o instrumento mais poderoso de compreensão da civilização e um processo desenvolvido com a evolução do homem e sua busca para se preservar e resolver as dificuldades.
O ponto de partida da ciência não era somente a objetividade de uma idéia e sim também acreditar veementemente em algo que podia até não existir, mas que merecia a pena ser investigado.
Minha fascinação ao fazer ciência era a libertação dos dogmas, das crenças e começar a ver tudo com olhos novos e originais. Minha formação científica incluía a associação e interação da arte e ciência, no fundo a cultura.
A cultura associa a ciência e arte, por que não? O cientista e o artista têm o impulso para a ousadia, para buscar o desconhecido e desenvolver sua curiosidade e paixão.
Ambos buscam o inatingível e intocável: a real beleza e a verdade da natureza.
A cultura é o todo, é a beleza do universo, da natureza e um instrumento robusto para sentir, admirar, conhecer, observar e compreender o mundo. A cultura é a memória da humanidade e o impulso do desenvolvimento e da coesão social.
Ciência e arte não são o resultado da aplicação feliz de um artifício técnico ou da boa utilização de uma tecnologia.
Uma obra de arte e um bom artigo científico quase chegam a ser um milagre, e se não revelar ser uma coisa quase intangível, um algo mais, torna-se coisa pequena.
Por isto tanto a ciência como as artes fazem parte da natureza humana e da emoção, e com elas nos transformamos e damos mais sentido às nossas vidas e ao universo em que vivemos.
É impressionante como a ciência e a arte mudaram a minha percepção da sutileza, da delicadeza, da sensibilidade, do amor e da realidade do planeta.
A ciência é uma modalidade de cultura em si própria que pode transformar a cultura humanística e também modificar a humanidade.
Promover a cultura científica significa estimular o desenvolvimento da cidadania e uma participação dos indivíduos nos movimentos sociais e ao entendimento ao processo democrático.

Fonte: JC e-mail 3206, de 15 de fevereiro de 2007.

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